É hora da virada?

Gladys_perfil

 

De repente, nosso mundo agitado, com inúmeras obrigações diárias, desacelera como uma grande máquina baixando a rotação. Conciliar espaços domésticos, organizar as tarefas diárias, conviver mais com a família e amigos – mesmo que virtualmente -, eis grandes desafios. E quais serão os aprendizados que o isolamento social imposto por governos diante da pandemia do novo coronavírus têm nos ensinado? O Blog Lobas na Rede entrevistou a psicóloga, gestalterapeuta, professora e coach executiva e de carreira Gladys Prado, que atua em Santa Catarina e atende clientes por todo o Brasil e até exterior, para nos dar sua visão sobre o assunto. Acompanhe! Vale a pena!

1) A pandemia do novo coronavírus nos obrigou a voltar para casa e, por consequência, a revisar nossas prioridades. De que forma esta grande pandemia pode nos ajudar? É hora de definir um novo futuro?

Sim, a pandemia nos obrigou a voltar para casa, para dentro. Me chama atenção que a gente está muito acostumado a ter uma rotina exaustiva, cumprir agenda apertada, ficar no  trânsito, e tem toda uma coisa, muito legal, que é de estar na rua, de se movimentar, conversar com as pessoas, o que é saudável inclusive. Mas existe também uma exposição a muitas demandas na interação com o meio que exigem uma atenção da gente para fora.  No escritório, a gente tem que prestar atenção nas pessoas, nos diferentes compromissos. Cuidar se tudo está funcionando, se meu colega está bem, ou precisa de ajuda? O fulano está contribuindo e me ajudando no projeto? Ou dificultando? Que estratégias vou usar para resolver aquela demanda? Como equacionar a agenda de reuniões com os deslocamentos? E aí essa pandemia pode nos ajudar a parar e pensar um pouco sobre as demandas internas. O que é importante pra mim? Com o que de fato eu preciso ocupar o meu tempo e a minha atenção? Nós não precisamos, estando em casa, acompanhar as notícias o tempo todo. A gente pode realizar o nosso trabalho com menos interrupções do que se estivéssemos no escritório. Então, o fato de ficarmos em casa nos abre a possibilidade de ganhar um tempo para estar conosco. De ter algum controle sobre a nossa agenda.

2) – Em tempos de isolamento que projetos podem ser gestados a curto prazo, que habilidades podemos desenvolver?

Eu diria: a habilidade de estar conosco. Então, como está a nossa competência e cuidado conosco? Quanto eu me concentro no que é importante pra mim? Como está a qualidade da minha respiração, da minha alimentação, do meu descanso? Ou me deixo entrar num nível de estresse, ansiedade, de curiosidade pelo que o outro me chama? Esse é o exercício: eu preciso ficar ouvindo as notícias o tempo todo? Ou posso me atualizar de manhã, de meio-dia ou à noite ou só de manhã e ao meio-dia, porque à noite eu vou dormir mesmo. Daí posso aproveitar o tempo que eu não estou no trânsito para ficar comigo, para meditar, ouvir uma música, prestar atenção na minha respiração, brincar com os meus filhos, conversar com meu esposo/a, namorar. Eu como porque estou com fome ou vou almoçar só porque é hora do almoço? Quando a gente está fora de casa, nossa agenda corrida é imposta pelo horário do relógio profissional. Quando eu estou trabalhando de casa eu consigo ter, provavelmente, uma flexibilidade maior. E aí o meu convite é: vamos aperfeiçoar a nossa habilidade de estar conosco, de reconhecer nossas necessidades pessoais. Como é eu usar esse tempo não para ficar olhando as notícias de como estão os meus amigos nas redes sociais, mas sim como é que eu me percebo? Como é que eu posso respirar de um jeito a prestar atenção se eu respiro mais devagar, mais rápido? Na medida em que eu presto atenção na respiração, eu influencio o meu pensamento e dessa forma eu posso parar de pensar bobagem. Eu começo a qualificar meus pensamentos e como consequência minhas emoções. Quando a gente fica olhando só as notícias que vêm de fora e que promovem em nós algumas emoções, nem sempre construtivas, a gente se perde em devaneios. Sim, é real que existe um vírus. É real que a imunidade do mundo está tendo que enfrentar esse problema. Mas dentro da minha casa, se eu não tenho ninguém doente – graças a Deus é a maioria-, a maior parte da nossa realidade é essa. Eu posso aqui me concentrar em cuidar de mim. E ao cuidar de mim eu estarei cuidando de todas as outras pessoas. E esse também é um aprendizado poderoso: cuido do outro, por meio do cuidado comigo.

 3) Que habilidades podemos desenvolver neste período?

Eu imagino que se a gente usar esse período para aprender sobre si, sim. Se a gente usar esse período para incorporar novos hábitos como o cuidado pessoal, consumo consciente, alimentação mais nutritiva, auto observação. Como a gente está cuidando para não sair, provavelmente estamos economizando saídas, compras, mudando o hábito consumista como um todo. E talvez inclusive escolhendo com quem a gente quer se relacionar, porque é muito legal se relacionar com as pessoas, mas nem todo mundo é legal pra todo mundo. Nós temos um conjunto de tempo finito. Que tal manter por perto só aquelas pessoas que de fato combinam conosco e fazem parte da nossa história? Aquelas que contribuem para que a gente seja feliz e mais alegre? Aquelas que nos incentivam e acreditam em nós? Não é uma coisa tipo algumas pessoas são boas, outras são ruins. Nem tudo combina com tudo. É só a gente olhar – nem todas as cores combinam entre si. Nem todos os lugares combinam com todas as pessoas. Porque ao saber mais sobre mim, eu consigo ter uma clareza melhor sobre o outro. E aí eu vou poder ser solidário com o outro num jeito genuíno, no que seria realmente importante para ele. Meu desejo é que neste momento a gente possa encontrar novas formas de se relacionar com as pessoas, com o trabalho, com o lazer, com a família, com a economia, com a política. E que neste momento, com essa experiência humanitária, possamos voltar a ser mais humanos, reconhecendo o nosso lugar, as nossas fragilidades e as nossas forças.

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